Escultura simposista: tentativa para o seu adestramento.

Existe uma tradição escultórica relacionada com os Simpósios em Portugal. Podemos garantir que tal tradição se inscreve normalmente em contextos sociopolíticos muito particulares, onde a diferença entre ser um produto de consumo cultural e uma estratégia de fotogenia política no campo das artes plásticas, não está muito desfasada. Não precisamos de esforços desmesurados para constatarmos que quase na sua totalidade os simpósios de escultura sobrevivem e alimentam-se com o mecenato municipal camarário.

Não obstante, existe uma espécie de pessoalização destes eventos, isto é, facilmente vemos associados os mesmos nomes, os mesmos escultores, numa lógica encerrada e circular.

No entanto, para além desta conjectura inscrita nos genes da coisa, será interessante debruçarmo-nos sobre o produto que germina destes simpósios.

Embora existam simpósios de escultura em argila, madeira, areia, gelo, etc., interessa-nos para este ensaio os simpósios de pedra. Estes, normalmente apresentam nas suas premissas uma preocupação de especificidade do tipo de pedra (mármores, granitos e ardósias) com a zona geográfica onde se realizam, assim como, as suas esculturas resultam quase sempre em escalas consideráveis, pois ocuparão o lugar público (parques, canteiros, rotundas ou praças) cumprindo como função primeira – o embelezamento.

Em termos formais, caracterizam-se por um investimento na dimensão abstracta, e dentro desta, a abstracção geométrica. Mesmo quando enveredam para o campo figurativo, será sempre uma figuração tendencialmente estilizada, no apuramento de linhas, sinuosidades e volumetrias. A figura humana apresenta-se maioritariamente no feminino ou minoritariamente em composições com o género oposto, explorando imaginários eróticos (talvez resultado de uma masculinização exacerbada dos simpósios de pedra). Por vezes, assistimos a uma hibridação do corpo humanizado com a geometria do sólido.

No tema, existe uma tendência para a fauna e flora, havendo circunstancialmente situações de aproximação e ilustração de iconografia religiosa de matriz judaico-cristã, assim como breves sugestões de diálogo com a arquitectura – no sentido mais estrutural da disciplina.

As técnicas surgem normalmente associadas à subtracção com auxílio da maquinaria especializada, no entanto com recurso frequente a técnicas ancestrais de cantaria. Existindo também o desenho através da gravação na pedra, assim como, a assemblagem, embora menos recorrente, tratando-se de exercícios de composição e adição de pedras trabalhadas com outros materiais. O ferro, curiosamente, é um material que se associa frequentemente à pedra, para determinadas composições, embora tenha uma vocação mais estrutural, talvez por ser um material forte mas facilmente moldável.

Por último, parece existir uma característica seminal nestas composições que arriscam jogos de equilíbrio e ilusão óptica, desafiando as leis da física e da percepção visual no espaço público, essa característica tem que ver com uma dialéctica constante entre o polido e o tosco, o brilhante e o baço, o liso e o irregular, entre o acabado e o inacabado (onde as marcas residuais dos “guilhos”, resultantes dos processos de corte, dão um aspecto de prova processual, transportando na sua textura a memória de um processo acidentado e árduo).

Existe uma espécie de esteticização do inacabado, onde a incompletude não se refere à insuficiência de tempo de finalização ou desleixe, mas a uma procura de emoção estética no acidente, no rude, no mal feito.

Esta dialéctica sai reforçada com uma frequente polarização de significados, jogos simples e eficazes de semiótica, a enumerar: frio-quente; mole-duro; claro-escuro; cima-baixo; horizontal-vertical; associados a conceitos mais metafísicos: homem-mulher; paixão-ódio; sofrimento-felicidade; equilibrio-desiquilibrio; vida-morte; bem-mal, etc…

Todas estas características investem este manancial de objectos escultóricos conferindo-lhe uma identidade e feições próprias, assim como um estilo composto por uma gramática precisa, de tal forma que, quando falamos de escultura simposista, sabemos do que falamos.

Samuel J. M. Silva